Para começar, estou a viver com a senhoria e com outra rapariga. Quer dizer, neste momento acho que somos 4 cá em casa: eu, a senhoria, o filho dela (que discutiu com a mulher) e uma norueguesa que deve andar à procura de casa. A rapariga que vai mesmo viver comigo ainda não a vi nem conheci…
Sinto-me uma estranha nesta casa que se abriu para mim. O meu novo quarto é muito fixe: uma cama, uma mesa-de-cabeceira, um roupeiro, uma secretária e 2 outros móveis (que não posso mudar de sítio, segundo os “Estatutos” colados na porta do quarto, como nos hotéis). Tenho ainda uma varanda com uma mesa e 2 cadeiras e 2 armários na parede (um deles cheio de caixas das minhas mudanças). A casa também é porreira, se esquecermos que parece um bocado desabitada, sem toalhas na casa de banho e com o frigorífico um bocado vazio.
Quase tenho medo de fazer barulho, não vá incomodar as outras pessoas (e, mais uma vez, desobedecer aos “Estatutos”, que definem ainda o dia de pagar a renda, o dia de lavagem da roupa e outras regras básicas de convivência). Tudo o que faço é pensado minuciosamente, cada movimento estudado com cuidado. Tento evitar as pessoas, com medo que elas julguem as minhas acções. Ainda é tudo muito estranho para mim…
Para completar o quadro, estou num bairro novo, pelo qual andei a passear à tarde. O melhor de tudo é que existem 2 supermercados iguais, um perto e um longe. Adivinhem ao qual é que aqui a Nicas foi comprar as coisas para abastecer a despensa? Ao mais longe, claro! E tive de andar imenso, carregada que nem um camelo. Quando cheguei à minha rua é que reparei que, na direcção oposta, havia outro supermercado, exactamente igual, a menos de 10 metros.
Vamos ver como passo esta primeira noite cá em casa, agora que ainda não tenho trabalhos para fazer nem coisas para estudar, nem sequer computador para me entreter. Vou ver TV e ler o meu livrito, que remédio!
Ai, estas novas cores da minha vida dão-me cabo dos olhos…””
Isto foi aquilo que deveria ter postado aqui no blog no dia em que fiquei pela primeira vez naquela que foi a minha casa durante o último ano lectivo. Até certo ponto, ainda bem que não postei, ou agora iam chamar-me maluca (pelo menos os que já sabem das peripécias pelas quais fui passando ao longo do tempo).
Bem, as coisas mudaram radicalmente lá por casa. Os móveis continuaram no seu lugar (tal como mandavam os “Estatutos”) e o quarto continuou a ser fixe, apesar de ter perdido a minha mesa na varanda e ter ganho um candeeiro novo, porque o velho estava com ataques de preguiça.
O problema foi as pessoas com quem acabei por ir viver. A minha senhoria, que no início parecia super educada e desejosa de organização e limpeza, acabou por se mostrar uma cabra, porca e desorganizada (já explico porquê); a minha colega, apesar de ser simpática, sempre me pareceu muito estranha, porque entrava e saía do quarto dela sem nunca abrir a porta toda, como se guardasse um grande segredo lá dentro; e o filho da minha senhoria, o Paulo (que deve ter à volta de 40 anos), acabou por ficar mesmo a viver lá em casa, mostrando-se também uma pessoa pouco desejável.
De todas as coisas que me foram acontecendo, posso destacar:
- Comerem-me o pão e beberem-me os sumos durante o fim-de-semana, de modo que quando chegava ao domingo à noite não tinha as minhas coisas à acabei por ter de chamar a atenção ao Paulo e à senhoria
- Deixarem o Gui, o filho do Paulo, entrar no meu quarto e tirar-me canetas de cima da secretária
- Entrarem-me na casa de banho enquanto estou na banheira (por sorte, com a cortina fechada, porque uma vez foi o Paulo que entrou…)
- Deixarem a loiça por lavar durante quase uma semana inteira. Isto obrigava-me a lavar qualquer prato ou talher que quisesse utilizar para comer, fossem 8 da noite ou 7 da manhã

- Deixarem acabar o detergente da loiça (quando me disseram para não comprar, que isso era com a senhoria) e eu ter de lavar a loiça com gel de banho
- Deixarem acabar o papel higiénico durante 3 dias (eu tinha o meu rolo, por acaso. Não sei como é que eles limpavam o rabo e, acreditem, não quero saber)
- Às vezes esquecerem-se de puxar o autoclismo….
- Ter de ouvir a senhoria e o filho a discutir quase diariamente, aos gritos e muitas vezes à frente do Gui, muitas vezes sobre a melhor forma de o educar (que eu acho que nenhum deles sabia muito bem como fazer, mas isto é só a minha opinião)
- A minha senhoria a pedir à minha mãe para depositar o dinheiro da renda mais cedo nesse mês, porque tinha contas para pagar, e insistir nisso todos os dias, quando a minha mãe já tinha transferido o dinheiro para a conta dela há 3 dias (se ela precisava assim tanto do dinheiro, não via que ele já por lá andava na conta?)
- Ter havido um curto-circuito no meu quarto, que queimou o carregador do meu portátil e do qual (obviamente) não tive culpa, e a senhoria vir pedir-me dinheiro pelos computadores do Paulo que se estragaram, teoricamente devido a isso
- Ver o Paulo a atirar com o scanner ao chão e a dar-lhe um pontapé, porque ele não funcionava
- Ter visto o Paulo partir uma árvore do largo em frente ao prédio porque tinha o carro estacionado em cima do passeio e não conseguia sair de lá. Uma senhora, muito indignada, ainda tentou impedi-lo, mas ia levando porrada por causa disso. É claro que se chamou a polícia e a parva da mãe ainda o tentou desculpar, dizendo que ele estava com muita pressa
Enfim, como vêem, a minha vida neste último ano não foi muito fácil, mas sobrevivi. O pior é que ainda tenho de lá passar pelo menos 2 noites… Desejo a maior sorte à desgraçada que vá parar àquela casa. Acreditem que eu evitaria isso, se pudesse.
Foram assim as cores da minha vida. Um bocadinho negras, não?
(11/6/09)
Não posso deixar de comentar este post, pois, fui testemunha de alguns dos acontecimentos que a minha nicas enumera.
ResponderEliminarRealmente quando eu conheci a tua “ex-senhoria”(para ser simpático porque o que lhe deveria chamar era mesmo cabra porque lhe assenta que nem uma luva), imaginava que as coisas iriam ser difíceis para ti por ela ser super rigorosa, coisa que não se veio a comprovar por tudo o que aconteceu ao longo deste ano naquela casa.
A única coisa que posso dizer que foi boa, foi o facto de a “cabra” me ter deixado “pernoitar” (lol!) ao teu lado algumas noites, porque se não o nome que lhe assentava mesmo bem era “Puta do caralho”… hihihihi!
Ainda bem que sais-te de lá e espero que a próxima casa que encontrares pela frente seja melhor que a última em termos de ambiente, o que não deve ser difícil.
Loool.
ResponderEliminarPobre coitada, rapariga. E conseguias estudar nesse manicómio! E eu a pensar que o meu prédio é que era o prédio dos maluquinhos psiquiátricos sem tratamento.
Nã é fácil, mas olha, o que não nos mata, torna-nos mais fortes, como diria o fofinho do Nietszche.
Se algum dia estiveres a desesperar, liga-me e vem para minha casa, que fica atrás do sol posto, mas pronto, pelo menos os malucos estão separados por paredes.
òsculos
Bem, agora já saí deste sítio de doidos (não tencionava ficar pior do que aquilo que já sou, como devem calcular).
ResponderEliminarA casa para onde vou agora parece mais decente (apesar da senhoria ter muitos aspectos semelhantes com a anterior... humm) e tem muito melhor ar. Acho que ali "vou ser feliz" LOL